O avô António era um homem robusto, de aspecto nórdico, olhos azuis-cinza (herdado por via materna), extremamente calmo, apesar de na tropa ter posto uns quantos desordeiros em sentido empunhando um daqueles bancos corridos de refeitório como se fosse um mata-moscas. Por isso, porque diziam ter a força de um cavalo, deram-lhe a alcunha de o "Cavalas". No entanto era um poço de bondade.
Na juventude a sua vida não foi muito diferente da do bisa Domingos, seu pai, apesar de não ser tão temerário no que respeita à actividade de pescador. Mas o mar também lhe corria nas veias e quando chegou à idade legal, foi para a Marinha Mercante. Pode-se dizer que viajou pelos "sete mares" percorrendo as rotas do Império Português do Ultramar; Guiné, Cabo Verde, S. Tomé, Angola, Moçambique, Índia, Macau, Timor... e mais houvesse!
Andou em muitos navios e naquele era a primeira vez que ia carregar ao porto de Luanda, em Angola. Uma tarde, pela latitude das ilhas de S. Tomé e Príncipe, o comandante contou-lhe a história daquele negro que costumava aparecer junto à amurada do navio para olhar o mar. N'Bemba (assim se chamava) era o cozinheiro. Homem de estatura colossal, já entrado na idade, possuia uma particularidade que se notava bem quando sorria; tinha os dentes limados em forma de bicos, comum na sua tribo, o que lhe dava um aspecto feroz. No entanto não passava de uma pobre alma atormentada.
N'Bemba tinha tido um ajudante de cozinha, miúdo com quem se dava como se fosse um filho (dizia-se que talvez até fosse) e que por alturas de S. Tomé (precisamente onde agora navegavam), o garoto numa das suas brincadeiras caíu ao mar e foi devorado pelos tubarões que costumam infestar aquelas águas. N'Bemba gritou, aflito, esbracejou, deseperado, assistindo impotente à tragédia. Sentiu a alma a abandonar-lhe o corpo. Gritou a plenos pulmões e gritou chorando até os seus gritos se tornarem roucos. Quase mudos. Quase inaudíveis. Até não lhe restar mais que um fio de som. Por fim lançou um guincho desumano que se foi tornando longínquo. Nunca mais lhe ouviram uma palavra da sua boca.
Agora, dizia o comandante, sempre que passavam por aquele lugar n'Bemba cozia abóboras e deitava-as a ferver ao mar. Os tubarões abocanhavam-nas, engoliam-nas, e estas literalmente explodiam-lhes nas entranhas. Apareciam logo de seguida a boiar, de barriga para cima, em estertores de agonia. Era o ritual de n'Bemba. E o seu olhar era de profunda tristeza. Encontrara assim uma forma para aliviar a dor da sua perda. E n'Bemba olhava o mar com o olhar perdido de um marinheiro sem alma.
Foram muitas as histórias e intermináveis as conversas ao entardecer entre o avô António e o seu comandante, memoriando passagens difíceis da vida, situações cómicas, sustos durante tempestades no mar, saudades de casa e da família, etc. Tinha nascido ali uma amizade. Um dia, quando passavam a cidade do Cabo, na África do Sul e segurando-se ambos ao corrimão da amurada devido ao mar agitado (típico daquela zona), o avô António reparou num pormenor que lhe fez gelar o sangue. O seu amigo comandante trazia no dedo de uma das mãos que seguravam o gradeamento, um anel. O anel...Não era um anel qualquer. Era aquele mesmo anel de prata, igualzinho ao que o avô António trazia no seu fio ao pescoço desde que o bisa Domingos lho tinha confiado. Não havia dúvidas! Era igualzinho! O impacto daquela visão quase lhe fez parar o coração. Trouxe-lhe à memória acontecimentos passados dos quais já quase não se lembrava. E o avô António, inexplicavelmente, contra toda a lógica, disfarçou a surpresa e não disse uma palavra.
Ao fim de quase uma eternidade, o contacto tinha acontecido. Mas só o meu avô sabia.



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