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Algures, pelos bosques do Reino, deixamos o nosso signal. OrCa:TemPo |
"Dissimulados,
como fantasmas,
pacientemente observamos..."
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Quantas sementes que hoje lançamos à terra irão crescer até se tornarem árvores?
Fazêmo-lo ao longo de um caminho por nós idealizado, na esperança de algum dia obter o fruto do esforço. Tal como no passado outros fizeram. Tal como no futuro outros farão.
Ao longo da vida, todos passamos, de alguma forma, por processos de aprendizagem que nos enriquecem interiormente. E neles, o nosso 'caminho' acaba se cruzando com vidas passadas mais frequentemente do que se pensa, num percurso que acaba influenciando a individualidade, sugerindo por vezes a necessidade de isolamento, levando até à inevitável solidão. E, sem se dar por isso, o 'Espírito' desconhecido que pacientemente aguardava, entra sem bater à porta nem se anunciar. Simplesmente invade-nos a alma, transformando-a, enriquecendo-a, vestindo-a como uma segunda pele. De repente começamos a entender melhor a mensagem do passado, trabalhando-a no presente, para a devolver às futuras gentes.
Quantas das sementes assim lançadas se tornarão árvores?
Já há muito que visito Belmonte. Sempre o fiz trazendo comigo a secreta esperança de conseguir abrir a pequena fresta (por mais ínfima que seja) que me deixe penetrar nos segredos da coesão cultural destas gentes, com quem muitos de nós sentimos uma inexplicável afinidade, se não familiar, pelo menos histórica. Segredos que teimam em manter-se distantes. Velados ao visitante.
Tentei-o muitas vezes, vendo sempre serem-me devolvidas possibilidades cada vez mais ténues de sucesso. Até que um dia (já lá vão uns trinta anos ou mais), sem esperar, fui presenteado com a oportunidade única de interagir com esses espíritos tão fugidios e voláteis.
Soube, depois, que tendem a revelar-se numa época do ano em que começa a pairar no ar o perfume adocicado das flores de Maio. Parece que só se deixam ver uma vez. Podem estar numa esquina do castelo, a subir penosamente uma das velhas ruas medievais ou sentados num banco de jardim. Simplesmente, "deixam-se aparecer", as minhas flores de Maio.
Não se lhes deve fazer qualquer pergunta sobre o que quer que seja que queiramos saber. Apenas observar e escutá-las em silêncio.
- Tem traços de "Falacha velho". Anda à procura de alguma coisa, ou então vem cá só "respirar".
Sim, daquela vez, sem qualquer intenção pré-concebida, tinha vindo apenas "respirar". - Sentir o cheiro das "Maias". - Reflectir na quantidade de antepassados meus que por aqui passaram, repetindo destinos, procurando um assentamento permanente, num qualquer "cantinho mágico" português, a fim de iniciarem uma nova vida vendo os seus filhos prosperar em paz e segurança. Tarefa de integração difícil mas possível, como a história destas comunidades nos tem demonstrado. Os meus, sei que se espalharam por Belmonte, Valhelhas, Maceira Dão, Lageosa do Mondego, Celorico da Beira, Algodres... Sinto-os tão perto. E tão longe...
- "Falachas velhos" ? Esses não são os que ficaram pela Etiópia ?
(A tribo hebraica da Etiópia é conhecida como Beta Israel ou Falashas. Historicamente, a comunidade preservou o judaísmo bíblico isolada por milhares de anos nas regiões de Gondar e Tigré, com fortes tradições que apontam a sua origem para a Tribo de Dan e descendência do Rei Salomão e da Rainha de Sabá.) Dizem... e estes de Belmonte parecem ter disso tanto em comum.
- Sim, os que ainda guardam verdades históricas comprometedoras sobre velhas religiões. Verdades que a maioria desconhece, outros preferem contornar e alguns, de preferência, esquecer...
Verdades históricas... A Etiópia viveu-as bem nos episódios do "Êxodo", nas pilhagens culturais que sofreu, na apropriação dos seus conhecimentos ancestrais, na posterior e derradeira tentativa bíblica de repor essas verdades. Gondar, a última capital do império e Debra Tabor viveram-nas bem e de perto. Bahi Dar viveu-as bem e de perto guardando ainda hoje o "segredo das águas" do Lago Tana, do Nilo Azul... As Magdalas; Amba e Ambra Mariam viveram-nas bem e de perto. O enigmático sacerdote João, o Baptista... viveu-as intensivamente bem e de perto. Muito de perto, no seu ambiente natural.
- Mas nós não nos esquecemos. É isso que nos faz diferentes.
Sem dúvida. A grande diferença entre cripto Judeus e Judeus. A diferença que demarca os de Belmonte dos demais. E pelo que percebi, vão continuar assim por muito tempo. Enquanto a sua tradição se mantiver forte, secreta, genuína. Enquanto as flores de Maio continuarem a "aparecer-nos" com o seu surpreendente perfume doce, revelador.
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| Universidade marroquina de Al-Qarawin que alberga uma das bibliotecas mais antigas do mundo |
Praticamente todas as Bibliotecas possuem o que se costuma chamar de "reservado". Normalmente é esta a sua definição: "Reservados das bibliotecas" refere-se a colecções especiais de obras raras, frágeis ou importantes, separadas das colecções gerais e não acessíveis livremente. A reserva visa a conservação e é comum em bibliotecas de património, que podem digitalizar os seus fundos para permitir o acesso público."
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| a "porta secreta" da biblioteca de al-Qarawiyyin |
E depois há as chamadas e pouco conhecidas "Bibliotecas proibidas"; uma espécie de camada dentro dos reservados onde só alguns priviligiados têm acesso para fazerem "estudos especiais". Trata-se de documentação ainda não "contaminada" pelos "ratos de bibliotecas" exteriores que trabalham para outros "ratos" que depois fazem negócio com o que obtêm; os chamados "mercenários de histórias".
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| Biblioteca da Universidade de al-Qarawiyyin |
Mas aqui quero falar apenas dos que trabalham honestamente nessa tal camada proibida que só a eles se encontra acessível. Felizmente temos a sorte e a honra de conhecer um desses priviligiados. De origem tunisina, há muito radicado em Marrocos, professor de História na Universidade de Al-Qarawin, amigo de longa data, visita-nos de vez em quando e junta-se às nossas longas tertúlias que têm lugar na cidade de Lagos (Algarve) até altas horas da madrugada. Recentemente esteve por cá durante uma semana.
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| Lagos, Algarve |
Para surpresa minha, o nosso amigo respondeu que sim, que havia um relato de um general romano que tinha participado na fundação de Mérida a mando do imperador Otávio Augusto, sobre o qual relato tinha feito um recente estudo. Cada vez mais curioso perguntei-lhe se nesse relato vinha alguma referência a Ammaia de Marvão. Respondeu-me que sim, que se eu estivesse interessado me enviaria cópia desse estudo.
Recebi-o na minha caixa de correio esta tarde e devorei o seu conteúdo. Sobre o que nos revela da Ammaia não vou falar aqui pois entendo que a publicação deste inédito deverá ter lugar no nosso outro blogue "Marvão, ninho de águias" com o título "Ammaia, a Hermínia da Legio V Alaudae".
Aproveito para aqui agradecer de forma sincera a colaboração que o nosso amigo historiador (cujo nome não menciono a seu pedido) nos tem prestado, renovando os meus votos de máximo sucesso para o meritório trabalho de investigação que tem desenvolvido, lembrando-lhe que será sempre benvindo ao nosso Algarve, nosso e dele, e que o partilhamos com ele como se partilha com um amigo especial e um irmão. Bem haja.
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| Fatima Muhammad al-Fihri fundadora da biblioteca al-Qarawin |
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| Brasão de armas de Vasco Anes Corte Real |
Entre as várias expedições que foram feitas destacam-se: Em 1473, o Infante D. Fernando, mandou João Corte Real e Álvaro Martins Homem descobrir a Terra Nova dos Bacalhaus. Em 1495, João Lavrador e Pêro de Barcelos chegaram à Gronelândia e à Península do Lavrador. Entre 1500 e 1506, os irmãos Miguel e Gaspar Corte Real, seguindo a rota do seu pai, procurando uma passagem para os mares da China, chegam à Terra dos Bacalhaus e desaparecem pouco depois nos mares gelados do Norte. Deixaram no entanto testemunhos da sua passagem na enigmática "pedra de Dighton", no estuário do rio Taunton, em Berkley, Massachusetts (em tempos parte da vila de Dighton, daí o nome da rocha).
Interpretação da inscrição na Pedra de Dighton - Museu da Marinha, Lisboa
Como curiosidade registe-se que estiveram guardados no Paço de Ilhas os portulários (mapas cartográficos) do pouco conhecido geógrafo e cartógrafo português Pero Roiz (Pedro Rodrigues) que constavam na descrição pormenorizada de toda a costa oriental das américas e uma boa parte da costa ocidental da América do Sul completado em 1503.
A cópia de uma parte deste mapa foi entretanto roubada por corsários turcos. Foi razurada, alterada, acrescentada com comentários otomanos. Uma terça parte do mapa que dizem de Piri Reis sobrevive hoje num museu de Istambul. Podem dizer o que quiserem mas sem dúvida que o nome do "almirante" Piri Reis pouco tem de otomano pois não passa de uma adaptação do nome do cartógrafo português Pero Roiz, autor oficial da obra.
1192. Mestre Gualdim Pais ordena a Sancho Monis a edificação da torre de Argolim para que sirva de base à fundação da Comenda Templária de Santo Isidoro de Ribamar. Esta Comenda teria os seus limites a norte no rio Safarujo com foz em Santa Susana (hoje S. Lourenço) e a ribeira de Benazer (a actual ribeira d'Ilhas) a sul.
* "... escolheram um lugar saudável para a fundação das casas do Templo a que deram o nome de Chãos de Ulmeiro por já haver ali ruínas de antiga ocupação junto de um vasto bosque de ulmeiros e carvalhos de grosso porte. Mestre Sancho ali mandou erguer uma torre e adossar-lhe habitação para os primeiros freires. Depois mandou que se fizesse uma cerca de protecção às casas e mais tarde outra que cercava também toda a mata..."
Na época (século XII) o rio do Safarujo não estava ainda açoreado e era navegável até distância considerável da sua foz onde a antiga muralha de acostagem, certamente de construção romana, deu o nome ao lugar como se depreende pela descrição:
* "... de início a torre se chamou de Argolim e teve este nome por indicação de um velho moleiro, mouro alforriado, que disse ter a sua azenha no lugar a que chamavam Argolim por haver ainda restos de uma muralha muito antiga na margem do rio com pesadas argolas de ferro cravadas que serviriam para prender os navios que subiam o rio até quase uma légoa da foz."
Era uma vez... um solar que foi desmontado, pedra por pedra, e remontado a vários quilómetros de distância. Parece ficção mas aconteceu mesmo.
Construído na freguesia de Vale de Azares, este solar guardava muita da história dos Amarais, Cabrais e Albuquerques na sua biblioteca particular, até que esta se perdeu num incêndio. Este acontecimento somado a problemas económicos já existentes, iniciaram o declínio desta casa senhorial que acabou vendida quase em ruínas. Dizia João Trabulo no Correio da Beira Serra em Abril de 2024:
" O Solar dos Amarais existiu em Vale de Azares, Celorico da Beira, também, conhecido por Solar de Fonte Arcada, por estar implantado numa propriedade no lugar de Fonte Arcada, um dos quatro povos que constituem a freguesia de Vale de Azares, no concelho de Celorico da Beira."
" Era uma casa senhorial com três pisos, rasgados por grande quantidade de portas e janelas. Apresentava na fachada principal uma pedra de armas, onde realçava a presença dos Cabrais e dos Amarais e a frontaria de uma capela dedicada a Nossa Senhora do Carmo. O solar foi mandado edificar por José Feliciano Amaral Cabral Saraiva que nasceu em 1816."
Margarida Mendes de Rezende, casada com um dos filhos do proprietário, revela-nos um pouco da sua história:
" Mais tarde, quando já estava em ruínas em consequência de um incêndio, foi comprado por meu sogro, José de Sousa Mendes de Rezende, segundo se supõe, à família Cabral Metelo que nos anos 50/60 viviam no Largo da Sé, em Coimbra. No início da década de 70 do séc. XX, foi desmantelado e transferido, pedra por pedra, para a Quinta dos Corgos, cuja propriedade ia desde o Mondego até aos limites de Vale de Azares, na freguesia da Lajeosa do Mondego, na reta das Primas na EN 16. As pedras foram todas numeradas para facilitar a genuinidade do edifício”.
Correio da Beira Serra, " Solar dos Amarais ou Solar Fonte Arcada – Lageosa do Mondego"
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| O solar "remontado" pedra por pedra a 4,5 kms do lugar original |
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| Distância de Vale de Azares (Grichoso) a Lageosa do Mondego |
Este património retirado à freguesia levou consigo o azar que tinha transformado o Vale de Flores (nome primitivo) num Vale de Azares. No lugar para onde foi mudado, chegou a ser uma casa de vício noturno, definhou e apagou-se. No local original restou o vazio e a memória de vivências mais nobres.
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| O solar dos Amarais ainda em Vale de Azares |
Tinha eu os meus 7 ou 8 anos quando estive com o meu pai neste solar. "Vamos passar uns dias com as primas Cabrais a Vale de Azares" dizia-me ele. Na época ainda o imóvel estava em Vale de Azares, terra de muitos dos meus antepassados. Lembro-me vagamente das irmâs Cabrais, já idosas, uma delas a um canto da cozinha fazendo um caldo verde ao fogo de lareira numa panela de ferro. As suas vozes miudinhas, melodiosas, amáveis, francas.
Lembro-me de ter dormido num dos quartos de visitas, talvez num destes na foto acima. Lembro-me também de ir até à adega mais abaixo e comer um merendeiro bem recheado de carne e chouriço e de beber uma caneca de vinho caseiro. Depois disso, e porque não estava habituado à pureza daquele tinto, não me lembro de mais nada...
Anos mais tarde, quando o solar já tinha sido trasladado para Lajeosa do Mondego, chegou-me às mãos um livro, um dos poucos ou talvez até o único sobrevivente do incêndio, porque teria sido anteriormente oferecido a um familiar, de encardenação muito antiga; o primeiro de três volumes intitulados "Os Cabrais e os Corte-Real na Terra Nova", que mantenho comigo e de onde tirarei as próximas memórias a publicar aqui.
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| Solar dos Cabrais(Açores, Celorico da Beira) |