Já há muito que visito Belmonte. Sempre o fiz, trazendo comigo a secreta esperança de conseguir abrir a pequena fresta (por mais ínfima que seja) que me deixe penetrar nos segredos da coesão cultural destas gentes, com quem muitos de nós sentimos uma inexplicável afinidade, se não familiar, pelo menos histórica. Segredos que teimam em manter-se distantes. Velados ao visitante.
Tentei-o muitas vezes, vendo sempre serem-me devolvidas possibilidades cada vez mais ténues de sucesso. Até que um dia (já lá vão uns trinta anos ou mais), sem esperar, fui presenteado com a oportunidade única de interagir com esses espíritos tão fugidios e voláteis.
Soube, depois, que tendem a revelar-se numa época do ano em que começa a pairar no ar o perfume adocicado das flores de Maio. Parece que só se deixam ver uma vez. Podem estar numa esquina do castelo, a subir penosamente uma das velhas ruas medievais ou sentados num banco de jardim. Simplesmente, "deixam-se aparecer", as minhas flores de Maio.
Não se lhes deve fazer qualquer pergunta sobre o que quer que seja que queiramos saber. Apenas observar e escutá-las em silêncio.
- Tem traços de "Falacha velho". Anda à procura de alguma coisa, ou então vem cá só "respirar".
Sim, daquela vez, sem qualquer intenção pré-concebida, tinha vindo apenas "respirar". - Sentir o cheiro das "Maias". - Reflectir na quantidade de antepassados meus que por aqui passaram, repetindo destinos, procurando um assentamento permanente, num qualquer "cantinho mágico" português, a fim de iniciarem uma nova vida vendo os seus filhos prosperar em paz e segurança. Tarefa de integração difícil mas possível, como a história destas comunidades nos tem demonstrado. Os meus, sei que se espalharam por Belmonte, Valhelhas, Maceira Dão, Lageosa do Mondego, Celorico da Beira, Algodres... Sinto-os tão perto. E tão longe...
- "Falachas velhos" ? Esses não são os que ficaram pela Etiópia ?
(A tribo hebraica da Etiópia é conhecida como Beta Israel ou Falashas. Historicamente, a comunidade preservou o judaísmo bíblico isolada por milhares de anos nas regiões de Gondar e Tigré, com fortes tradições que apontam a sua origem para a Tribo de Dan e descendência do Rei Salomão e da Rainha de Sabá.) Dizem... e estes de Belmonte parecem ter tanto em comum.
- Sim, os que ainda guardam verdades históricas comprometedoras sobre velhas religiões. Verdades que a maioria desconhece, outros preferem contornar e alguns, de preferência esquecer.
Verdades históricas... A Etiópia viveu-as bem nos episódios do "Êxodo", nas pilhagens culturais que sofreu, na apropriação dos seus conhecimentos ancestrais, na posterior e derradeira tentativa bíblica de repor essas verdades. Gondar, a última capital do império e Debra Tabor viveram-nas bem e de perto. Bahi Dar viveu-as bem e de perto guardando ainda hoje o "segredo das águas" do Lago Tana, do Nilo Azul... As Magdalas; Amba e Ambra Mariam viveram-nas bem e de perto. O enigmático sacerdote João, o Baptista... viveu-as intensivamente bem e de perto. Muito de perto, no seu ambiente natural.
- Mas nós não nos esquecemos. É isso que nos faz diferentes.
Sem dúvida. A grande diferença entre cripto Judeus e Judeus. A diferença que demarca os de Belmonte dos demais. E pelo que percebi, vão continuar assim por muito tempo. Enquanto a sua tradição se mantiver forte, secreta, genuína. Enquanto as flores de Maio continuarem a "aparecer-nos" com o seu surpreendente perfume doce, revelador.
